domingo, 5 de junho de 2016

M.

A tanto tempo eu sentia que a dor era constante, uma constante aqui. 
Ela doía constantemente aqui, e eu nem via.
Sabia que estava ali, e em alguns momentos eu permitia ela tomar conta de mim, derrubava algumas lagrimas e depois a trancava.


Era sempre assim, doía aqui, doía ali.
Era saudade sem fim.
Era uma dúvida, uma virgula, uma penitencia, uma oração, uma saudade , um caixão a sete palmo do chão.
Não sabia quem eu estava enterrando, se era seu corpo, sua alma, sua memoria, minha memoria, minhas lembranças, se era a sua ou a minha vida.

Tudo ficava meio bagunçado, atrapalhado, fora do lugar.
Eu deixei tudo espalhado, tudo pro lado e deixei de sorrir.
Até que um dia, uma coisinha, surgiu.
Um fiozinho de esperança e alegria poderia chegar até aqui.
Será que você que preparou essa pra mim?

Quase nove meses depois eu voltei a sorrir, não tanto quando sorria com você.
Ainda sim eu sentia a dor me afligir, me seguir, me cobrir, me cobrar um espaço
Um tempo, uma noite de lagrimas sem fim.
Tive noites sem dormir, dias querendo dormir...
Feriados sem comemoração e dias para visitar seu "caixão".
Ai, mãe, é difícil dizer adeus, é difícil aprender a ser mãe sem uma mãe.

Foram cinco anos, que passei lembrando de ser filha
Cinco anos querendo chorar sua morte sofrida
E agora, mãe, terei uma vida inteira para viver o que você viveu
Quero ser mãe, quero viver com meu filho.
Quero sorrir, quero chorar, quero ser feliz
Quero ver ele crescer, casar e ser pai.

Tudo isso que você não viu, tudo isso que você perdeu.
Tudo isso que fiz sem você.
Tudo isso.
Tudo.


"Eu sou parte de sua vida, e você é toda a minha história. Mãe."


05/06/2016

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